Por Lucas Sena · 5 de outubro de 2026
Da rua para o mapa do Brasil
Passei as últimas semanas coordenando, aqui em Pompeia, a campanha dos deputados parceiros do Prefeito. Foram dias de reunião, de conversa no comércio, de porta em porta, de ouvir gente que normalmente ninguém ouve.
E campanha tem isso: ela tira a gente do gabinete e coloca diante do eleitor de verdade. Não o eleitor das planilhas, das teses ou das redes sociais, mas aquele que acorda cedo, paga conta e quer saber o que muda na vida dele.
O que eu vi na rua aqui na cidade ajuda a explicar muito do que aconteceu no país no último domingo.
O recado das urnas
Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno na frente, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. São pouco mais de 2,2 milhões de votos de diferença, e os dois voltam a se enfrentar no dia 25 de outubro.
Um presidente no cargo, com a máquina na mão, terminar o primeiro turno atrás não é detalhe. É recado. E recado que precisa ser lido com honestidade.
Uma esquerda que fala sozinha
A campanha de Lula foi ruim. E foi ruim porque espelha o que a esquerda brasileira se tornou: uma elite intelectual incapaz de dialogar com o proletariado que diz representar.
O discurso ficou acadêmico, cheio de conceitos e distante da vida real. Fala-se muito sobre o trabalhador, mas pouco com ele. Soma-se a isso uma arrogância que não admite erro e uma falta quase absoluta de autocrítica.
O escândalo envolvendo ministros do STF entra nessa mesma conta. Para boa parte do eleitorado, ficou a sensação de um grupo que se acostumou ao poder e às relações confortáveis com ele, e isso cobra seu preço na urna.
No fundo, o problema é antigo. A esquerda não se renovou, não acompanhou as mudanças da sociedade e não formou novas lideranças. Acomodou-se no poder. E quem se acomoda no poder costuma colher exatamente esse tipo de resultado.
Vai pedir voto pra quem?
É uma loucura. A esquerda demonizou tanto seus oponentes, chamando-os de fascistas, de extrema-direita, que agora não consegue nem pedir voto.
Vai pedir voto pra quem? Para a população que você mesmo chamou de fascista?
Quase metade do país votou no outro lado. Não são todos radicais, não são todos inimigos da democracia. São pais, mães, trabalhadores, gente comum que foi rotulada em vez de ouvida. E ninguém convence quem passou anos ofendendo.
A esquerda fez uma leitura tão errada da sociedade que, a três semanas do segundo turno, não tem nem o que fazer agora.
Quem soube ler o tabuleiro
Do outro lado, é preciso reconhecer: Flávio entendeu onde estavam as fraquezas da campanha adversária e mirou exatamente nelas. Falou de desgaste, de acomodação, de distância entre o governo e o cidadão comum. Política também é isso, ocupar o espaço que o outro deixa vazio.
Mas há um ponto em que os dois se igualam, e não para melhor: nenhum deles foi aos debates. Debate não é espetáculo, é prestação de contas. É o momento em que o eleitor vê o candidato sem roteiro, sem edição, sendo confrontado.
Quando os dois principais candidatos fogem desse confronto, quem perde é o eleitor, que vai às urnas sabendo menos do que deveria.
Segundo turno: a história e a incerteza
A história joga a favor de Flávio. Desde a redemocratização, em todas as eleições presidenciais decididas em segundo turno, quem terminou o primeiro turno na frente acabou vencendo. Foi assim em 1989, 2002, 2006, 2010, 2014, 2018 e 2022.
Mas história não vota. E o cenário está longe de ser estável. A abstenção passou de 21% do eleitorado, mais de 33 milhões de brasileiros que simplesmente não foram às urnas.
Numa disputa decidida por cerca de 2 milhões de votos, basta uma fatia pequena desses ausentes resolver aparecer no dia 25 para mudar o jogo. Quem conseguir tirar esse eleitor de casa leva.
Reinventar-se ou virar nota de rodapé
Independentemente de quem vença no dia 25, o primeiro turno já deixou uma lição clara. Quem para de ouvir a rua, a rua para de ouvir.
A esquerda brasileira tem diante de si uma escolha que não pode mais adiar. Ou se reinventa, ou corre o risco de se tornar apenas mais um capítulo nos livros de história.
Obs: Este artigo não é uma opinião do Site, mas do colunista que o escreveu.