Especial: O legado de Dona Otília

O legado de Dona Otília

Há pessoas que passam pela vida. E há aquelas que transformam vidas. Dona Otília pertence a esse segundo grupo. Sua história não pode ser contada apenas pelas datas que marcam seu nascimento e sua partida, mas pelos incontáveis corações que ela ajudou a formar ao longo de um século de existência.

Nascida em 1º de julho de 1926, em Agudos, interior de São Paulo, filha de José dos Santos Cavalheiro e Gersey Virginia Marcelina, Dona Otília ainda jovem escolheu Pompeia para construir sua história. Aqui constituiu sua família ao lado de José Antonio Asmar, com quem teve dois filhos, Vera e Júnior (já falecido). Foi nesta cidade que criou raízes, fez amigos e dedicou sua vida ao próximo.

Mas falar de Dona Otília é, inevitavelmente, falar do SIM – Serviço de Integração de Menores.

Ela foi uma das fundadoras da instituição e dedicou mais de quatro décadas de sua vida à missão de acolher, educar e oferecer oportunidades a crianças e adolescentes. Muito antes de se falar em responsabilidade social ou transformação pela educação, ela já vivia esse propósito todos os dias.

Sua dedicação nunca foi por reconhecimento. Era por amor.

Amor aos adolescentes. Amor às famílias. Amor ao próximo.

O SIM não foi apenas uma instituição para Dona Otília. Foi uma extensão da sua própria vida. Ali, ela ajudou a construir histórias, restaurar esperanças e mostrar que pequenos gestos de cuidado podem mudar destinos.
Foi no SIM que tive o privilégio de conhecê-la mais de perto.

Ao longo de 14 anos, caminhei ao seu lado naquela missão. Aprendi muito mais observando suas atitudes do que ouvindo qualquer discurso. Dona Otília ensinava com o exemplo: na forma como acolhia as pessoas, na humildade com que servia e na firme convicção de que todo ser humano merece uma oportunidade.

Há alguns anos, ela confiou a mim uma das maiores responsabilidades que já recebi: dar continuidade ao legado que ajudou a construir. Não era apenas assumir uma função. Era preservar uma história de amor, serviço e compromisso com as futuras gerações. Receber essa confiança foi uma honra que levarei para toda a vida.

Hoje entendo que legados não são patrimônios materiais. Legados são valores que passam de uma geração para outra. São sementes plantadas com dedicação, regadas com trabalho e colhidas por pessoas que talvez nunca conheçam quem as semeou.

Dona Otília plantou milhares dessas sementes.

Sua vida nos lembra que a verdadeira grandeza não está no poder, na fama ou nos títulos, mas na capacidade de dedicar tempo, talento e coração para transformar a vida de outras pessoas.

Pompeia perde uma mulher centenária.
O SIM perde uma de suas maiores referências.
Sua família perde uma mãe, avó e bisavó querida.
E eu perco uma amiga, uma conselheira e uma inspiração.
Mas o que ela construiu permanece. Permanece nos jovens que encontraram um novo caminho por meio do SIM. Permanece nas famílias alcançadas pelo amor que ela espalhou. Permanece em todos nós que tivemos o privilégio de aprender com sua vida.

Obrigado, Dona Otília.
Obrigado por acreditar nas pessoas.
Obrigado por dedicar sua vida ao próximo.
Obrigado por confiar em mim para continuar essa missão.
Seu exemplo seguirá vivo em cada gesto de amor, em cada criança acolhida e em cada vida transformada.
Esse é o seu verdadeiro legado.
E esse legado jamais será esquecido.

Por Pércio Fidelis

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