Eleições 2026: Editorial – A eleição da segunda chance, por Lucas Sena

Desde 1989, uma regra nunca falhou no Brasil: quem chegava na frente no primeiro turno saía presidente. No domingo, 25 de outubro, ela caiu. Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno com 47% dos votos válidos, contra 45% de Lula. Três semanas depois, o placar se inverteu: Lula, 51,8%; Flávio, 48,2%. Foram cerca de 4,4 milhões de votos de diferença.

A eleição teve ainda outra novidade inédita, bem menos digna de comemoração: pela primeira vez, o horário de votação foi prorrogado em todo o país, por decisão do ministro Cristiano Zanin, do STF. O motivo eram problemas de transporte em algumas cidades. A campanha de Lula pediu a prorrogação, e houve pedidos também do lado de Flávio. O Ministério Público Eleitoral foi contra. A decisão foi nacional, embora na prática só tenha valido onde as urnas ainda estavam abertas.

Lula assume o quarto mandato diante de um Congresso ainda mais à direita. O PL terá a maior bancada nas duas Casas: 121 deputados e 28 senadores. No Senado, o bloco de direita pesará nas indicações ao STF.
Na economia, a herança é pesada. A dívida bruta está hoje perto de 83% do PIB, e o próximo governo começa com um ajuste fiscal praticamente contratado.
A impressão que fica é a de um país que foi às urnas no primeiro turno, olhou o resultado e pensou duas vezes. Entre uma votação e outra, Lula ganhou mais de 10 milhões de votos; Flávio, menos de 4 milhões.

O segundo turno, portanto, não foi uma continuação do primeiro. Foi uma segunda chance, e só um dos lados percebeu isso.

O PT entendeu o recado no dia seguinte. A militância voltou para a rua, e a campanha passou a mirar os ausentes, os indecisos e os votos perdidos nos lugares onde esperava ir melhor. Foi um trabalho de formiguinha, eleitor por eleitor, uma mobilização em grande escala que surtiu efeito.

Do outro lado, o bolsonarismo se comportou como quem já tinha vencido. Faltou mobilização e sobrou salto alto. Os apoios partidários chegavam um atrás do outro, e a fatura parecia liquidada.

A escolha de ter Pablo Marçal ao lado resume o maior erro da campanha. Quem precisava reduzir rejeição para crescer não poderia ter colocado na linha de frente justamente um dos nomes mais rejeitados da política brasileira. Marçal estava inelegível, falava em “tocar o terror” no STF e disse que feminicídio não existe. Para o eleitor de centro, aquele que decide um segundo turno, era a confirmação do que ele mais temia.

Flávio falou para quem já votava nele. Lula foi buscar quem ainda não votava.

A prorrogação, por si só, não explica o resultado: ela valeu apenas em parte das seções, e a diferença final foi de 4,4 milhões de votos. Mas foi uma decisão medonha e desnecessária. Um problema localizado virou uma medida nacional, tomada por um ministro do Supremo, e não pela Justiça Eleitoral, depois do horário e no meio da apuração. Não mudou o resultado, mas entregou de bandeja a munição para o “terceiro turno” que o bolsonarismo já ensaia.

E que fique claro: a eleição foi legítima. Dá para criticar a decisão e reconhecer o resultado ao mesmo tempo. Aliás, é exatamente isso que se espera de quem leva a democracia a sério.

Com o novo Congresso, Lula terá dificuldade para indicar quem quiser ao STF. O impeachment não fecha na conta, mas vai pairar sobre a cabeça do presidente como instrumento de pressão permanente. Por outro lado, Lula servirá de contrapeso a um Congresso mais bolsonarizado. Sem ele, o freio seria bem menor. E, no meio desse cabo de guerra, alguma saída para a perda de legitimidade do STF terá de ser costurada. Já escrevi no meu blog, o Fora da Ata, que deu a louca no Supremo, e o domingo só reforçou o diagnóstico.

Lula 4 ou Dilma 2? Lula corre o risco de reviver Dilma em 2014: herdar uma bomba fiscal que ele próprio armou, agravada pela gastança em ano eleitoral. Dilma ganhou em 2014 e, em 2015, teve de entregar a economia a Joaquim Levy e a um ajuste amargo. Lula talvez tenha de fazer o mesmo, com um Congresso que não vai facilitar.

Sejamos honestos: independentemente do resultado, o país continuaria lascado. Nenhum dos dois tinha uma saída clara para os problemas que estão aí. A escolha foi democrática, e agora é encarar e torcer por melhorias.

O que eu espero daqui pra frente:

Que Lula faça um mandato melhor. O Lula 3 não chegou nem perto de bom.
Que a direita se reorganize e se desvincule do bolsonarismo.
Que a esquerda se reorganize e deixe de depender de Lula.
Que acabe a polarização e a radicalização que tomaram conta do país desde 2018.
O Brasil deu a si mesmo uma segunda chance. Resta saber se os políticos vão dar uma ao Brasil.

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